Incerteza econômica: teoria, mercado e decisão

Do pensamento pós-keynesiano à economia comportamental, o texto mostra por que a incerteza não é um erro do sistema, mas uma condição permanente das decisões econômicas.

Por que esse debate volta sempre à tona

Há um debate que cresce no meio acadêmico, no ambiente corporativo e na sociedade como um todo. Ele revela uma simbiose interessante entre academia e mercado: trata da forma como lidamos com a incerteza.

Esse tema é importante porque a incerteza também “conversa” com as tomadas de decisão do mercado, especialmente com a alocação de recursos entre os diversos ativos disponíveis.

No meio acadêmico, há uma discussão relevante que separa os keynesianos — ou pós-keynesianos — dos neoclássicos, frequentemente associados à defesa do livre mercado. Os primeiros procuram compreender como alcançar o pleno emprego e construir um ambiente de longo prazo com estabilidade e previsibilidade.

Para isso, recorrem ao ferramental da teoria keynesiana, especialmente a A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes, publicada originalmente em 1936. A obra considera que as flutuações de demanda precisam ser mitigadas por intervenções do setor público, estimulando consumo e investimento.

Nesse contexto, o multiplicador keynesiano ganha destaque. Trata-se de um conceito macroeconômico segundo o qual um aumento inicial nos gastos, como investimentos do governo, pode gerar um aumento mais do que proporcional no PIB.

Dessa forma, o debate keynesiano passa pelo ambiente econômico em que predomina a incerteza. Ninguém tem como prever crises ou, como diriam alguns economistas, flutuações de demanda.

Na visão neoclássica, os mercados tendem a se “autoajustar”, não sendo necessárias correções a partir dos gastos do setor público. Parte-se, nessa leitura crítica, da visão de que o processo é natural e previsível a partir das ocorrências passadas.

No longo prazo, a economia tenderia a se ajustar e chegar a um estado de equilíbrio ou estabilidade. O problema, aqui, é que, para chegarmos ao longo prazo, uma sucessão de curtos prazos, com erros de percurso, precisa ser superada.

No mercado financeiro, muitos tentam enquadrar o tempo a partir da apuração do nível de risco, que é mensurável pela probabilidade de ocorrência. A incerteza, no entanto, não é controlável ou mensurável. É um “salto no escuro”.

Toda essa discussão passa pela teoria econômica. Na teoria pós-keynesiana, a incerteza aparece como elemento norteador, uma espécie de “ponte no tempo, para o futuro”, tendo como destaque a preferência pela liquidez.

Trata-se da decisão sobre a demanda por moeda, de acordo com o momento analisado, considerando escolhas por transação, precaução ou especulação. Nesse processo, a taxa de juros passa a ser um dos elementos centrais, com destaque para a moeda como ativo e para o fato de os juros funcionarem como uma espécie de “preço” diante do que se enxerga no futuro.

Outra visão vem da Economia Comportamental, com o jornalista e autor Simone Stolzoff, no livro How to Not Know. Para Stolzoff, aceitar a incerteza não significa resignação, mas desenvolver mais clareza, adaptabilidade e capacidade de julgamento.

O livro explora a nossa crescente intolerância coletiva à incerteza e funciona como um guia prático e filosófico para aprender a lidar melhor com o desconhecido.

A perspectiva comportamental: How to Not Know

Para Dan Kawa, economista da Partner Investments, “o livro How to Not Know, de Simone Stolzoff, traz reflexões práticas sobre esse tema, mostrando que aceitar a incerteza não significa resignação, mas sim desenvolver mais clareza, adaptabilidade e capacidade de julgamento. Stolzoff defende que a nossa capacidade de lidar com a ambiguidade está atrofiando”.

Segundo Stolzoff, “alimentados pelo acesso instantâneo à informação e por algoritmos projetados para nos dar respostas imediatas, criamos uma falsa ilusão de controle. No entanto, diante de cenários complexos — como crises climáticas, transições de carreira ou flutuações econômicas —, a busca cega por certezas gera ansiedade profunda”.

O livro propõe que o “não saber” não deve ser encarado como fraqueza, mas como uma habilidade essencial para inovação, empatia e tomada de decisões.

Quem convive melhor com a incerteza tende a tomar decisões mais racionais e consistentes. Essa conclusão ecoa, décadas antes, uma tradição teórica específica da economia.

A raiz acadêmica: a incerteza na economia pós-keynesiana

Essa conexão entre incerteza e tomada de decisão é um dos pilares centrais do pensamento pós-keynesiano, corrente na qual a demanda por moeda passa pelo comportamento dos agentes diante do ambiente econômico e da própria incerteza.

Nessa visão, própria de uma economia monetária de produção — ou seja, do capitalismo —, a demanda por moeda se transforma por transação, precaução ou especulação, dependendo do momento econômico e do grau de incerteza percebido.

É daí que vem a célebre frase de Keynes: “a longo prazo, estaremos todos mortos”.

Entre os principais expoentes dessa tradição estão Paul Davidson, Victoria Chick e Fernando Cardim de Carvalho.

Paul Davidson (1930–2024) foi um importante macroeconomista americano e um dos principais expoentes da vertente americana da economia pós-keynesiana. Também foi um dos fundadores do Journal of Post Keynesian Economics.

Entre suas contribuições centrais estão:

  • Incerteza fundamental e o axioma ergódico: ao contrário da economia clássica, o futuro não pode ser previsto estatisticamente apenas a partir do passado. Davidson rejeita o axioma ergódico e sustenta que as decisões econômicas são tomadas sob incerteza radical.
  • A moeda como fator central: a moeda não é apenas um meio de troca neutro, mas uma forma de reter riqueza em um mundo incerto. Essa preferência pela liquidez afeta diretamente o nível de emprego e a produção.
  • Crítica à economia convencional: Davidson rejeita modelos que assumem mercados com autorregulação automática ou flexibilidade de preços capaz de garantir o pleno emprego.

Victoria Chick foi uma economista pós-keynesiana britânica, conhecida por suas contribuições ao entendimento e ao reexame da Teoria Geral de Keynes.

Fernando Cardim de Carvalho foi um dos principais expoentes do pensamento pós-keynesiano no Brasil, professor emérito da UFRJ e aluno de doutorado de Paul Davidson. Foi também meu professor no mestrado acadêmico da UFF, mencionado como ponto de partida desta reflexão.

Obras de referência

Entre as obras de referência desses autores, destacam-se:

Paul Davidson

  • Money and the Real World — uma das obras clássicas do autor.
  • Post Keynesian Macroeconomic Theory — referência em macroeconomia pós-keynesiana.
  • Post Keynesian Theory and Policy — obra voltada à discussão de políticas econômicas.

Victoria Chick

  • Macroeconomia após Keynes: um reexame da Teoria Geral — publicada no Brasil pela Forense Universitária.
  • Sobre Moeda, Método e Keynes — coletânea de ensaios publicada pela Editora Unicamp.

Fernando Cardim de Carvalho

  • Keynes e os Pós-Keynesianos: princípios de macroeconomia monetária da produção — síntese da obra de Keynes.
  • Moeda, produção e acumulação — obra voltada à perspectiva pós-keynesiana.
  • Moeda e Sistema Financeiro: ensaios em homenagem a Fernando Cardim de Carvalho — coletânea de ensaios teóricos publicada pela Editora UFSM.

Fechando o círculo do debate

O que une as duas visões — a leitura comportamental de Stolzoff e a teoria monetária de Davidson, Chick e Cardim — é a mesma constatação: a incerteza não é um problema a ser resolvido, mas uma condição a ser administrada.

Isso vale para a alocação de ativos de um investidor, para a decisão de reter moeda por precaução ou para a escolha de carreira de uma pessoa.

O que diferencia boas decisões de más decisões não é a eliminação da incerteza. É a capacidade de administrá-la, gerenciá-la e tentar controlá-la, ainda que esse controle completo seja impossível.

Nota editorial: este artigo é assinado por Julio Hegedus Netto. As análises, opiniões e interpretações apresentadas no texto são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente a posição editorial do Economia em Pauta. O conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento.

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Julio Hegedus Netto
Julio Hegedus Nettohttps://economiaempauta.com.br/autor/juliohegedus/F
Sou economista, formado em 1991, com especialização na área de análise/research: Análise Econômica, Mercado Financeiro/Renda fixa e de Capitais/Equity. Minha formação acadêmica se pauta pelos seguintes cursos: Doutorando no exterior (Europa); Mestrados Profissionalizantes de Economia na FGV (parado) e na UCAM (2006); Mestrado Acadêmico na UFF (1991/95) (créditos); Pós-graduação em Análise de Conjuntura (UFRJ) (1998/99); Curso de Reciclagem em Economia e Finanças Dsc (2011); Cursos curtos diversos, finanças, ESG, economia, etc . Atuei como Economista-chefe na área de análise econômica e também no suporte à estratégia comercial da Mirae Invest, antes, na Lopes Filho & Associados. Atualmente, estou na ÉLIN DUXUS, como consultor.