A inadimplência no Brasil subiu para 4,7% em maio e atingiu o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em março de 2011. O avanço dos atrasos acima de 90 dias pressiona famílias, empresas e bancos, porque reduz a folga financeira dos tomadores e pode endurecer as condições para novas concessões de crédito.
A alta mensal foi de 0,1 ponto percentual, mas a preocupação está no patamar alcançado.
O recorde mostra que uma parcela maior dos tomadores de crédito chegou a uma faixa de atraso mais difícil de regularizar. O dado aparece em um momento de endividamento elevado das famílias, comprometimento de renda pressionado e piora também entre empresas. A junção desses fatores ajuda a medir a resistência financeira de consumidores e negócios, além de influenciar a forma como bancos avaliam novas operações.
Recorde concentra atraso na faixa mais difícil de recuperar
A inadimplência medida pelo Banco Central considera operações com atraso superior a 90 dias. O recorte separa atrasos momentâneos de uma dificuldade financeira mais persistente.
Um atraso curto pode estar ligado a descuido, diferença entre a data de vencimento e o recebimento do salário ou desorganização temporária do orçamento. Depois de três meses, a situação costuma indicar uma pressão mais profunda. Nesse ponto, renda, faturamento ou caixa já não acompanham o ritmo das parcelas.
A taxa média de 4,7% em maio mostra uma piora na etapa final da relação de crédito.
Para os bancos, atrasos mais longos elevam a percepção de risco das carteiras. A resposta costuma aparecer em critérios mais rígidos para novas concessões, exigência maior de garantias ou custo mais alto para clientes considerados mais arriscados.
Nem todos os tomadores sentem esse ajuste da mesma forma. Famílias com renda mais previsível, empresas menos endividadas e clientes com histórico sólido de pagamento preservam, em geral, melhor acesso ao crédito. Consumidores com orçamento apertado e negócios dependentes de financiamento ficam mais expostos a restrições.
Pessoas físicas puxam a piora da inadimplência
A inadimplência das pessoas físicas subiu de 5,5% em abril para 5,6% em maio, também em nível recorde. A alta entre famílias ajuda a explicar por que a taxa total das operações de crédito chegou ao maior patamar da série histórica.
O crédito às pessoas físicas concentra modalidades diretamente ligadas ao orçamento doméstico, como cartão, crédito pessoal e financiamentos. Cada linha reage de uma forma, mas todas dependem da mesma base: renda mensal suficiente para pagar parcelas, juros e despesas correntes. Quando essa base enfraquece, o atraso deixa de ser um evento isolado e passa a competir com outras contas do mês.
Com menos folga mensal, o atraso ganha velocidade.
Uma dívida vencida pode se espalhar para outras obrigações quando a família usa crédito mais caro para cobrir despesas imediatas ou perde margem para renegociar antes de completar 90 dias. O dado de maio mostra que parte das famílias já chegou a uma etapa mais difícil de reversão, em que reorganizar o orçamento exige mais do que adiar uma parcela.
Empresas também entram na zona de pressão
A inadimplência das empresas chegou a 3,24% em maio, acima dos 3,1% registrados em abril. Foi o maior percentual para esse grupo desde novembro de 2017, quando a taxa havia chegado a 3,27%.
A piora empresarial amplia a leitura do problema porque o aumento dos atrasos não está restrito às famílias. No setor produtivo, o crédito costuma sustentar estoques, fornecedores, folha de pagamento e despesas do dia a dia. Quando as parcelas atrasam por mais de 90 dias, a pressão já chegou ao caixa operacional.
Empresas que dependem de capital de giro ficam mais sensíveis nesse ambiente.
Se a receita não acompanha as obrigações ou se o custo financeiro pesa demais, a margem para manter pagamentos em dia diminui. A renovação frequente de empréstimos também fica mais difícil quando os bancos passam a enxergar risco maior em determinados perfis de negócio.
O reflexo sobre a atividade econômica não é imediato nem uniforme. Empresas com menor acesso a crédito podem adiar expansão, reduzir compras, renegociar contratos ou segurar contratações. A intensidade desse freio varia conforme o setor, o nível de endividamento e a capacidade de geração de caixa de cada negócio.
Orçamento das famílias perde margem de manobra
Os dados mais recentes do Banco Central para endividamento e comprometimento de renda das famílias têm defasagem em relação à inadimplência de maio. Na nota divulgada em 1º de julho, com referência a abril, o endividamento das famílias ficou em 49,8%, estável em relação a março e com alta de 0,9 ponto percentual em 12 meses.
O comprometimento de renda permaneceu em 28,2% em abril, também estável na comparação com março. Em 12 meses, o indicador aumentou 1,1 ponto percentual.
Os dois indicadores ajudam a dimensionar a pressão sobre o orçamento doméstico. Endividamento mostra quanto da renda está vinculado a dívidas. Comprometimento de renda mostra a fatia mensal usada para pagar essas obrigações.
Quando essa fatia cresce, sobra menos espaço para despesas básicas, consumo, emergências e renegociação de parcelas.
A situação fica mais sensível quando várias dívidas se acumulam ao mesmo tempo, como cartão de crédito, empréstimos pessoais e financiamento. Mesmo com alguma sustentação da renda, o orçamento familiar continua vulnerável se as parcelas avançam mais rápido do que a capacidade de pagamento.
O recorde da inadimplência, portanto, expõe uma tensão que já vinha aparecendo no orçamento das famílias: renda disponível limitada, crédito caro e dívidas ocupando uma parte relevante do mês. Quanto menor a folga mensal, maior a chance de um atraso temporário virar inadimplência prolongada.
Bancos passam a filtrar melhor novos empréstimos
A alta da inadimplência influencia diretamente o cálculo de risco dos bancos. Quanto maior o atraso nas carteiras, maior a preocupação com perdas e maior a necessidade de calibrar novas operações.
Na segunda etapa desse ajuste, a seleção fica mais fina. Bancos podem examinar renda com mais rigor, reduzir limites em linhas rotativas, exigir garantias adicionais em algumas modalidades e cobrar mais caro de tomadores com maior risco de atraso. A restrição pesa principalmente sobre quem já chega ao banco com renda comprometida ou histórico recente de inadimplência.
Para o consumo, o canal de transmissão é direto.
Crédito mais caro ou mais restrito tira força de compras parceladas, financiamentos de bens e contratação de empréstimos. A consequência não precisa ser uma queda imediata do consumo, mas uma perda de fôlego entre famílias que dependem de crédito para manter ou ampliar gastos.
Nas empresas, a restrição pesa sobre capital de giro e investimento. Negócios com fluxo de caixa apertado enfrentam mais dificuldade para rolar dívidas, financiar estoques ou manter planos de expansão. A inadimplência mostra quem atrasou pagamentos no passado recente, mas também entra no preço e nas condições do crédito que será oferecido daqui em diante.
Renegociação só funciona se a parcela couber na renda
O avanço da inadimplência ocorreu no mesmo mês de lançamento do Novo Desenrola Brasil, também chamado de Desenrola 2.0. O programa foi lançado pelo governo federal em maio de 2026 para estimular a renegociação de dívidas de famílias, estudantes, pequenos empreendedores e outros públicos.
O dado de maio, porém, não permite afirmar que a iniciativa já tenha influenciado o resultado da inadimplência.
Programas de renegociação ajudam quando reduzem encargos, reorganizam prazos e tornam a dívida pagável. O efeito se perde se a nova parcela continua pesada demais para a renda disponível. Também se perde quando outras dívidas ocupam rapidamente o espaço liberado no orçamento.
Renegociar não é o mesmo que recuperar fôlego financeiro.
Para a inadimplência recuar de forma consistente, as famílias precisam conseguir pagar os acordos sem substituir dívidas antigas por novas pendências. Entre empresas, a lógica é semelhante: renegociação ajuda quando o fluxo de caixa suporta os novos compromissos.
A próxima leitura do Banco Central deve mostrar se a inadimplência recorde de maio foi um pico isolado ou o início de uma pressão mais duradoura no crédito. O teste estará menos no anúncio de renegociações e mais na capacidade real de famílias e empresas manterem os pagamentos em dia depois do acordo. Sem essa recomposição, bancos seguem mais seletivos, consumidores perdem espaço para compras financiadas e negócios endividados continuam operando com caixa curto.

