O IGP-M caiu 0,50% em junho, em dado divulgado nesta segunda-feira (29) pela FGV (IBRE). Com o resultado, o Índice Geral de Preços – Mercado acumula alta de 3,27% no ano e de 3,16% em 12 meses. Em maio, o indicador havia subido 0,84%; em junho de 2025, tinha recuado 1,67% e acumulava alta de 4,39% em 12 meses.
O dado parece simples, mas a composição do índice muda a leitura: a queda de junho veio principalmente do atacado, enquanto os preços ao consumidor e os custos da construção ainda avançaram.
O IGP-M reúne três componentes com pesos diferentes: IPA, com 60%; IPC, com 30%; e INCC, com 10%. Essa estrutura explica por que uma queda mais forte nos preços ao produtor consegue puxar o índice geral para baixo mesmo quando consumo e construção ainda registram aumento de custos.
Atacado puxou o IGP-M para o campo negativo
O principal responsável pela queda do IGP-M foi o Índice de Preços ao Produtor Amplo, o IPA. O componente caiu 0,97% em junho, depois de ter subido 0,91% em maio.
O IPA mede preços em uma etapa anterior ao consumo final. Ele capta variações em matérias-primas, insumos, bens intermediários e produtos negociados entre empresas antes que parte desses custos chegue ao varejo.
A leitura para empresas é direta: quando os preços ao produtor recuam, algumas cadeias produtivas passam a operar com menor pressão de custos. O repasse para o consumidor, no entanto, não acontece de forma automática. Estoques acumulados, margem de lucro e concorrência definem se a queda no atacado chega aos preços finais ou fica parcialmente absorvida pelas empresas.
Por isso, o recuo do IPA melhora a fotografia do IGP-M, mas não significa queda imediata nos preços pagos pelas famílias.
Matérias-primas deram o sinal mais forte de desaceleração
Dentro do IPA, o grupo de Matérias-Primas Brutas teve o recuo mais intenso. A queda foi de 2,76% em junho, após alta de 0,43% em maio. Bens Finais também arrefeceram: o grupo subiu 0,23%, bem abaixo da alta de 1,10% registrada no mês anterior. A virada do indicador passa por essa desaceleração nas matérias-primas e nos bens finais. Esses grupos entram na formação de custos ao longo da cadeia produtiva; quando cedem ao mesmo tempo, o IGP-M reflete a mudança com mais intensidade.
Produtos ligados a commodities, combustíveis e itens agrícolas também contribuíram para o resultado, com destaque para recuos em cana-de-açúcar, café, gasolina e etanol.
O ponto central está na duração desse recuo. Um mês de queda reduz a pressão de curto prazo; uma sequência de leituras mais fracas indicaria uma folga mais consistente nos custos produtivos.
Consumidor ainda viu preços subindo
O Índice de Preços ao Consumidor subiu 0,47% em junho. A alta foi menor que a de maio, quando o IPC avançou 0,61%, mas o índice continuou positivo.
Para o orçamento das famílias, a diferença entre desaceleração e queda é essencial. Desacelerar significa subir menos. Não significa, necessariamente, ficar mais barato.
Cinco das oito classes de despesa cederam em junho: Habitação, Alimentação, Saúde e Cuidados Pessoais, Transportes e Vestuário. Transportes ficou no campo negativo, com queda de 0,35%, após recuo de 0,31% em maio. A Alimentação desacelerou, mas permaneceu em alta. O grupo passou de 1,30% em maio para 1,02% em junho. Para famílias que gastam parcela relevante da renda com comida, a alta menor reduz o ritmo da pressão, mas ainda não representa queda efetiva no custo do mês.
Construção teve trégua parcial, mas mão de obra pressionou
O Índice Nacional de Custo da Construção avançou 0,85% em junho, acima da alta de 0,77% registrada em maio. O INCC acompanha custos ligados à construção civil e entra no cálculo de obras, contratos e projetos imobiliários. A composição do indicador mostra uma divisão importante. Materiais e Equipamentos desaceleraram de 1,08% para 0,86%. Serviços também recuaram no ritmo de alta, passando de 0,50% para 0,28%.
A pressão veio da mão de obra. O grupo acelerou de 0,43% para 0,91% e sustentou o aumento do custo da construção no mês.
O resultado limita a leitura positiva do IGP-M. O índice geral caiu, mas construtoras, incorporadoras e contratos ligados a obras ainda convivem com aumento de custos, principalmente pelo componente de trabalho.
IGP-M mostra custos antes de parte deles chegar ao bolso
O IGP-M não é a inflação oficial do Brasil; a referência para a meta perseguida pelo Banco Central é o IPCA.
Mesmo assim, o indicador continua relevante porque funciona como uma leitura ampla de custos em diferentes etapas da economia. O índice junta atacado, consumo e construção, permitindo identificar pressões que muitas vezes aparecem primeiro nas empresas e só depois chegam, total ou parcialmente, ao consumidor. Em junho, essa leitura foi especialmente importante porque o atacado caiu, mas o consumo e a construção seguiram em alta.
Empresas que dependem de insumos e matérias-primas encontram menos pressão quando o IPA recua. A melhora, porém, só chega ao consumidor se houver repasse para os preços finais, algo que passa por margem, estoques e competição em cada setor. Famílias expostas a alimentos, transporte e contratos corrigidos por índices de preços ainda precisam olhar para o comportamento dos itens finais, já que a distensão no atacado não apaga a alta registrada no IPC nem no INCC em junho.
Nos contratos, a leitura também exige cuidado. O IGP-M aparece em alguns reajustes, mas a correção segue a regra definida entre as partes, o período usado para cálculo e as condições específicas de cada acordo.
O teste agora está na duração do alívio no atacado
O IGP-M de junho trouxe um sinal positivo no atacado, mas ainda não confirmou uma melhora espalhada por toda a economia. O IPA caiu, enquanto IPC e INCC continuaram subindo.
A próxima leitura importante será a persistência do recuo nos preços ao produtor. Commodities, combustíveis e produtos agrícolas servirão como termômetro para medir se a queda de junho foi pontual ou se marca um período de menor pressão nas cadeias produtivas.
Os preços ao consumidor também precisam ser observados com cuidado. A desaceleração do IPC reduz o ritmo de aumento, mas Alimentação ainda registrou alta de 1,02% no mês. Para as famílias, o que importa no fim é o preço final, não apenas a queda de custos no atacado.
A leitura de junho ficou concentrada em uma divergência clara: IPA em queda de 0,97%, IPC em alta de 0,47% e INCC avançando 0,85%. Enquanto essa combinação persistir, o IGP-M pode até mostrar alívio no índice cheio, mas a confirmação de uma melhora mais ampla dependerá de preços ao consumidor e construção menos pressionados nas próximas divulgações.

