O Banco do Brasil chegou a 2026 mais cauteloso no crédito depois da piora da inadimplência no agronegócio. No primeiro trimestre, o banco registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões, queda de 53,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. A pressão veio principalmente das provisões para perdas, que somaram R$ 16,8 bilhões no período. Provisão é a reserva que o banco faz para cobrir perdas esperadas com clientes que podem atrasar ou deixar de pagar empréstimos, financiamentos e outras operações.
O ponto mais sensível está no crédito rural. A inadimplência acima de 90 dias no agronegócio chegou a 6,22% da carteira rural em março de 2026, avanço de cerca de 3,5 pontos percentuais em 12 meses.
A inadimplência geral do Banco do Brasil ficou em 5,05%.
A presidente do banco, Tarciana Medeiros, afirmou que o resultado do trimestre reflete “um ambiente mais desafiador para o risco de crédito”, com maior pressão na carteira de agronegócios. A fala resume o ponto central do balanço: o banco continua gerando negócios, mas precisa lidar com uma carteira rural mais pressionada.
O crédito voltou ao centro da leitura sobre os bancos públicos por causa desses números. Quando os atrasos crescem em carteiras relevantes, a instituição precisa reforçar reservas, rever riscos e calibrar melhor novas concessões.
Por que a piora da qualidade do crédito importa para os bancos públicos
Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES têm papel importante na oferta de financiamento no país. Essas instituições atuam em áreas como crédito rural, habitação, infraestrutura, pequenas empresas, investimento produtivo e programas ligados ao desenvolvimento econômico. Essa presença mantém recursos circulando em setores estratégicos, mas também exige controle de risco quando juros elevados pressionam empresas, consumidores e produtores rurais.
Com o dinheiro mais caro, empréstimos novos e renegociações pesam mais no orçamento. Produtores rurais, pequenos empresários e famílias precisam usar uma fatia maior da renda ou do caixa para honrar parcelas; quando essa pressão se prolonga, os atrasos tendem a aparecer primeiro nos grupos com menor folga financeira.
Crédito público não elimina risco de crédito.
Para os bancos, a piora da qualidade das carteiras chega ao balanço. Mais risco de calote exige provisões maiores, reduz espaço para lucro e pode tornar a concessão de novos empréstimos mais seletiva.
Como juros altos e inadimplência afetam o crédito
A cadeia é direta: juros elevados encarecem o dinheiro, dificultam a renovação de dívidas e aumentam o peso das parcelas. Com menos margem no orçamento ou no caixa, famílias e empresas ficam mais vulneráveis a atrasos. Quando os atrasos aumentam, o banco precisa reconhecer maior risco de perda.
O reconhecimento desse risco eleva as provisões e reduz a rentabilidade. Se a piora persistir, a instituição tende a liberar crédito com mais cautela.
No Banco do Brasil, o agronegócio preocupa pelo tamanho da carteira. A carteira de crédito rural somava R$ 418,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, dentro de uma Carteira de Crédito Expandida que ultrapassou R$ 1,3 trilhão. A alta da inadimplência não significa que todo o crédito rural esteja em situação crítica; quando um segmento grande mostra deterioração, o banco precisa acompanhar de perto o efeito sobre resultado, apetite ao risco e estratégia de concessão.
Quem pode sentir a cautela dos bancos no crédito
Os próprios bancos sentem primeiro a piora da qualidade das carteiras. Mais atrasos exigem provisões maiores, pressionam o lucro e aumentam a necessidade de controle de risco.
Produtores rurais podem enfrentar análise mais rigorosa em novas operações, principalmente quando o histórico de pagamento, as garantias ou o fluxo de caixa indicarem risco maior. Em alguns casos, a renovação de crédito pode ficar mais difícil ou menos favorável.
Pequenas e médias empresas e consumidores também entram nessa dinâmica. Empresas menores dependem de crédito para capital de giro, compra de insumos, pagamento de fornecedores e expansão; famílias, por sua vez, sentem o peso dos juros em empréstimos, financiamentos e limites rotativos. Quando os bancos reduzem o apetite ao risco, o crédito não desaparece, mas fica mais seletivo, mais caro ou mais restrito para perfis considerados vulneráveis.
Para investidores, o tema importa porque o Banco do Brasil é uma companhia listada na Bolsa. Indicadores como inadimplência, provisões, lucro e rentabilidade influenciam a percepção sobre a qualidade da carteira e a capacidade de geração de resultados.
Isso não é recomendação sobre a ação; é apenas o motivo pelo qual os próximos balanços devem ser acompanhados com atenção.
O papel da Caixa e do BNDES no cenário de crédito
Caixa e BNDES têm funções diferentes dentro do sistema financeiro público. A Caixa tem forte presença no crédito habitacional e em programas voltados a famílias e políticas públicas. O BNDES atua principalmente no financiamento de empresas, infraestrutura, inovação, indústria, exportações e projetos de investimento.
Em 2025, o BNDES informou fomento de R$ 366 bilhões por meio de financiamentos e garantias de crédito, valor equivalente a uma média de R$ 1 bilhão por dia. O número mostra o peso do banco de desenvolvimento na oferta de recursos para a economia e ajuda a explicar por que bancos públicos seguem relevantes mesmo quando instituições financeiras privadas ficam mais seletivas.
A discussão para 2026 passa pelo equilíbrio entre ampliar financiamento e preservar qualidade das carteiras.
Bancos públicos podem sustentar setores estratégicos, mas uma expansão sem avaliação adequada de risco tende a gerar inadimplência mais alta e pressão sobre resultados. O equilíbrio fica mais delicado com juros elevados, porque crédito ajuda empresas e famílias, mas crédito mal calibrado pode virar perda para as instituições financeiras.
O que pode mudar na prática
O efeito mais imediato é uma possível seletividade maior na concessão de crédito. As linhas podem continuar disponíveis, mas com análise mais cuidadosa sobre renda, fluxo de caixa, garantias e histórico de pagamento.
Outro efeito aparece nos resultados dos bancos. Quando as provisões sobem, uma parcela maior do resultado operacional fica reservada para perdas esperadas. Se a inadimplência continuar alta, a rentabilidade tende a seguir pressionada.
Pequenas empresas e produtores rurais podem sentir essa mudança na hora de renovar dívidas, buscar capital de giro ou financiar investimentos. Clientes com fluxo de caixa mais frágil, garantias limitadas ou histórico recente de atraso tendem a enfrentar mais exigências para obter crédito novo.
Para o mercado, o lucro de um único trimestre diz pouco. O que vai pesar nos próximos balanços é a qualidade das carteiras.
O que acompanhar agora
- Evolução da inadimplência do Banco do Brasil, especialmente no agronegócio.
- Novos dados de provisões nos próximos balanços dos bancos públicos.
- Ritmo de concessão de crédito para produtores rurais, pequenas empresas e consumidores.
- Atuação da Caixa e do BNDES na oferta de financiamento em áreas estratégicas.
Conclusão
A cautela do Banco do Brasil mostra que o crédito segue como um dos pontos mais sensíveis da economia brasileira em 2026. A alta da inadimplência no agronegócio, o aumento das provisões e o ambiente de juros elevados exigem mais atenção sobre a qualidade das carteiras bancárias.
Para o leitor, o tema importa porque afeta produtores, empresas, consumidores, investidores e a capacidade dos bancos públicos de manter financiamento disponível sem comprometer a solidez financeira.
O próximo teste estará nos balanços seguintes: se os atrasos no crédito rural perderem força, a pressão sobre provisões pode diminuir; se continuarem elevados, os bancos públicos terão menos espaço para ampliar crédito sem aumentar o risco dos seus próprios resultados.

