A tensão entre EUA e Irã volta a pesar sobre os mercados
No cenário internacional, os mercados continuam sobressaltados pelas novas tensões entre Estados Unidos e Irã. O acordo de paz anunciado não eliminou os impasses, já que muitos dos pontos colocados na mesa não foram aceitos integralmente pela Guarda Revolucionária.
O Estreito de Ormuz voltou ao centro das preocupações. Mesmo com tentativas de normalização do fluxo comercial, a circulação de navios segue condicionada por tensões militares, cobranças, restrições e incertezas sobre a segurança da região. Depois de uma sequência de ataques a instalações americanas e iranianas, o acordo entrou em uma zona de impasse.
Petróleo, juros e aversão ao risco
Esse ambiente tornou o mercado mais turvo. A cotação do barril de petróleo voltou a subir com força, enquanto investidores reduziram exposição a ativos de risco e os juros futuros passaram a refletir maior preocupação com inflação e instabilidade.
Mercados não costumam reagir bem a esse tipo de incerteza. Um mínimo de previsibilidade é essencial para decisões de investimento, comércio internacional, política monetária e planejamento empresarial. Quando o risco geopolítico se intensifica, o petróleo tende a ser um dos primeiros preços a reagir.
Tanto o Brent quanto o WTI voltaram a ser negociados próximos ou acima de US$ 80 por barril, sinalizando que o choque geopolítico voltou a contaminar as expectativas de inflação, crescimento e juros.
Bancos centrais ficam mais cautelosos
Diante desse quadro, os bancos centrais passam a fazer uma leitura mais cautelosa sobre os próximos passos. A pressão sobre o petróleo reduz o espaço para cortes de juros mais agressivos, especialmente quando ainda há dúvidas sobre a trajetória da inflação.
Nos Estados Unidos, nem a troca de comando no Federal Reserve, com Kevin Warsh no lugar de Jerome Powell, foi suficiente para acalmar completamente os mercados. O ponto central é que a credibilidade de uma autoridade monetária depende de independência, consistência e reputação.
Se o Fed passasse a agir de forma claramente política, o custo reputacional poderia ser muito elevado. Em momentos de instabilidade, o mercado observa não apenas a decisão de juros, mas também a autonomia institucional de quem toma essa decisão.

O problema das descontinuidades
O pano de fundo é mais amplo. Vivemos um período de descontinuidades, em que decisões de política pública e de autoridades econômicas parecem cada vez mais dependentes de contingências políticas imediatas.
Falta planejamento. Falta visão de longo prazo. Falta previsibilidade.
E, quando a política pública fica refém da emergência permanente, empresas, investidores e famílias têm mais dificuldade para planejar. O resultado é um ambiente econômico mais defensivo, menos disposto ao risco e mais sensível a ruídos.
O reflexo no Brasil
Esse quadro também aumenta a pressão sobre a eleição presidencial brasileira de 2026. A disputa volta a ocorrer em um ambiente de forte polarização, baixa previsibilidade e dificuldade de construção de consensos mínimos sobre o rumo econômico do país.
O problema não está apenas na divergência política, que é natural em qualquer democracia. O problema aparece quando os principais campos políticos passam a explorar a polarização como ativo eleitoral permanente.
Isso é ruim para o país. Sem previsibilidade institucional, sem planejamento de longo prazo e sem uma agenda econômica minimamente estável, o Brasil fica mais vulnerável às turbulências externas e às incertezas internas.
Em economia, o improviso tem custo. E, em momentos de choque geopolítico, esse custo costuma aparecer mais rápido.
Nota editorial: este artigo é assinado por Julio Hegedus Netto. As análises, opiniões e interpretações apresentadas no texto são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente a posição editorial do Economia em Pauta. O conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento.

