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Vale a pena investir o FGTS em ações da Eletrobras?

Desde o último dia 18, uma das perguntas que vem martelando na cabeça dos brasileiros e brasileiras é se realmente vale a pena investir o FGTS em ações da Eletrobras. Hoje vamos discutir alguns pontos importantes que com certeza irão ajudar na melhor tomada de decisão.

Em primeiro lugar, é importante falar um pouco sobre a origem dos recursos: o FGTS.

O rendimento do FGTS historicamente não supera a casa dos 3 %aa, o que não é suficiente nem ao menos para compensar as perdas geradas pela inflação

Por outro lado, há poucas oportunidades para o trabalhador colocar a mão nesse dinheiro – o que de certa forma faz todo sentido, pois o Fundo tem o objetivo primário de garantir o sustento do trabalhador por algum tempo em caso de demissão – de forma que, em condições normais, não há como decidir por alocar esses valores em investimentos mais rentáveis.

E também precisamos entender um pouco sobre o destino dos recursos: o FMP, ou Fundo Mútuo de Privatização.

Existe essa estrutura do FMP cuja função é permitir o investimento no processo de desestatização de empresas do Governo Federal, Estadual ou Municipal. Ela não surgiu agora, com o processo da Eletrobras

Trata-se de algo antigo e com regulamentação própria, e que inclusive serviu para transferência de recursos do FGTS para compra de ações de outras duas importantes empresas brasileiras, a Vale e a Petrobras.

Nesse processo da Eletrobras, todo trabalhador que possui um mínimo de R$ 400 depositados em contas do FGTS (ativas ou inativas) pode participar desse processo, investindo até 50% dos valores que possui no Fundo de Garantia.

O resgate dos valores depositados no FMP da Eletrobras poderão ser transferidos de volta para o FGTS do trabalhador após, no mínimo, 12 meses (e não há impeditivo para manter os recursos no FMP por tempo maior). 

Outra opção de resgate seria após 6 meses, do FMP da Eletrobras para um outro FMP disponível no mercado. Em ambos os casos, é importante o trabalhador ter bem claro que os recursos só retornam de um FMP para a conta do FGTS, sem possibilidade de resgatar o saldo para uma conta bancária, por exemplo.

Exceções que permitem o acesso direto ao saldo do FMP: são as mesmas exceções padrão já existentes para o FGTS. Ou seja, caso ocorra demissão sem justa causa, invalidez permanente, morte ou necessidade de aquisição de moradia, o trabalhador poderá acessar os recursos do FMP. Que nesse caso serão transferidos novamente para as contas do FGTS, a fim de permitir o saque.

E vale a pena fazer esse movimento?

Deixando de lado os detalhes operacionais e falando um pouco mais do investimento em si, é importante que cada trabalhador avalie sua situação e seu perfil de investimento antes de tomar sua decisão.

A avaliação da sua situação é importante pois há casos em que os recursos do FGTS não são suficientes, por exemplo, para ao menos suprir as necessidades básicas da família do trabalhador por 6 meses em caso de demissão. 

Outro agravante é se o trabalhador não possui nenhum outro investimento que sirva como reserva de emergência, cujo objetivo também é o de garantir o orçamento doméstico por um período de 6 meses. Com isso, é preciso ter em mente que esses recursos precisam estar disponíveis em caso de uma demissão, por exemplo; e nesse caso talvez a utilização dos recursos do FGTS para investir no FMP da Eletrobras talvez não seja uma opção muito interessante.

Mas você disse que em casos específicos, como demissão sem justa causa, o trabalhador poderá sacar os recursos normalmente, mesmo que eles estejam alocados no FMP. Mesmo assim não vale a pena?

Mesmo com a opção de saque nessas situações, é importante ter em mente que o saldo transferido para o FMP será investido em ações da Eletrobras. Trata-se de renda variável, e portanto sujeito a oscilações. E considerando o cenário exposto (trabalhador com recursos escassos no FGTS), torna-se mais importante garantir que, em qualquer data futura de eventual necessidade, o recurso esteja 100% disponível. 

E ao transferir para o FMP, não há como garantir que no exato momento de uma eventual necessidade de saque as ações tenham se valorizado, de forma que o trabalhador pode se deparar com uma situação de reaver valores menores que o depositado inicialmente.

E isso nos leva a um outro importante ponto a ser considerado: o risco.

Como já foi dito, o ativo por trás do FMP são ações. E ações são investimentos que permitem maiores rendimentos (em comparação com a renda fixa, por exemplo), mas ao custo de um risco mais elevado. Trata-se de um investimento associado a pessoas com perfil mais agressivo ou moderado. 

Por outro lado, o grupo de pessoas que podem ter acesso a esse FMP é o trabalhador. Toda a classe economicamente ativa. E não é difícil imaginar que dentro deste grupo há investidores de todos os tipos. Desde pessoas com perfil de investimento extremamente agressivo até aqueles com perfil conservador. 

Importante: há uma grande parcela que nem ao menos é investidor!

Portanto esclarecer sobre o risco é fundamental.

Estamos falando de investimento em ações. Que podem sim apresentar um rendimento elevado, mas que também podem apresentar rendimento negativo. Em outras palavras, você pode perder dinheiro. E ao entrar nesse tipo de investimento é essencial que você esteja preparado para esse pior cenário. E se achar que não está, simplesmente não entre.

Você está me dizendo então que aqueles com perfil conservador não devem entrar no FMP da Eletrobras?

Negativo. Não custa lembrar que o FMP permite utilizar até 50% dos recursos do FGTS. Ou seja, você – investidor conservador – pode optar por quantias inferiores a esse limite de 50%, de forma a não se expor tanto ao risco.

O que esperar do FMP da Eletrobras?

Uma forma interessante de buscarmos um direcionador é observar o que aconteceu, por exemplo, com os FMP’s de outras duas grandes empresas, a Vale e a Petrobras. No gráfico abaixo é possível observar a evolução de quem optou por investir 50% do FGTS em cada um desses FMP’s, comparando com quem optou em manter todos seus recursos no FGTS.

Antes de qualquer análise, é necessário esclarecer que além do fato de estarmos falando de FMP’s de grandes estatais do Governo Federal, não há muitas outras semelhanças entre as 3 empresas. São setores bem distintos, com FMP’s sendo lançadas em momentos políticos e econômicos muito diversos, de forma que toda e qualquer análise deve ser observada com cautela.

Quem investiu em ambos FMP’s enxergam hoje rendimentos superiores àqueles observados no FGTS. Mesmo considerando a alta volatilidade dos papeis, exceto nos primeiros 2 anos, em nenhum outro momento ao longo dos últimos 25 anos o investidor dos FMP’s de Vale e Petrobras observou rendimento inferior ao do FGTS.

Uma análise comum ao se avaliar investimentos é compará-lo com a variação do CDI no mesmo período – ou mesmo do IPCA. Ao fazer essa comparação, vemos que em ambos cenários as estratégias de alocar 50% nos FMP’s de Vale e Petrobras renderam acima do CDI – que desde 1997 acumula pouco mais de 2.400%. 

Mas em alguns momentos, investir no FMP da Petrobras apresentava rendimento acumulado abaixo do CDI – devido à alta volatilidade e queda significativa do papel em alguns momentos. 

Entretanto, aqui cabe um alerta importante: o comparativo precisa ser ajustado para o cenário em questão, e ao invés de utilizarmos a régua padrão de comparar o investimento com o CDI, temos que compará-lo a “3 %aa” que é o rendimento do cenário base, ou seja, o cenário em que você mantém todo o dinheiro parado no FGTS. Isso porque em condições normais não é possível fazer qualquer outra coisa com esses valores que deixá-lo rendendo “3 %aa”, devido à falta de liquidez do FGTS.

Outro risco refere-se ao processo de privatização em si, que obviamente influencia diretamente na percepção do mercado e é um direcionador importante na definição do preço das ações.

E nesse aspecto é importante destacar que o processo de privatização já foi aprovado pelo TCU, restando apenas a execução da oferta pública. E caso o processo de privatização seja postergado, o FMP também é postergado pois o Fundo só pode existir no contexto da oferta pública. 

Em resumo, sem privatização não há FMP – e nesse caso, os recursos ficariam alocados em um fundo de renda fixa até a liquidação da oferta pública.

E nesse momento, já temos condições de concluir algo que todos devem ter em mente nesse momento.

Ao optar por investir no FMP da Eletrobras, o trabalhador está trocando uma certeza por uma dúvida.

A certeza ao se manter a totalidade dos recursos no FGTS é que ele irá render 3 %aa (ignorando aqui a TR, que historicamente beira a zero). Um rendimento que não supera as perdas inflacionárias. Nem ao menos supera o investimento mais popular dos brasileiros – a famosa e pouco rentável poupança.

Ao optar pelo FMP, o investidor entra em um cenário de dúvida pois não consegue garantir quanto terá em sua conta do FGTS daqui a 1, 5 ou 10 anos. Pode ser algo superior ao que se observou nos casos da Vale e Petrobras, por exemplo, mas também é possível ser algo muito ruim, abaixo até mesmo dos 3 %aa do FGTS. Ou até mesmo rendimentos negativos.

Cada trabalhador deve avaliar racionalmente sua condição antes de tomar a decisão de investir ou não, e se for investir, qual seria o percentual do FGTS que atenderia suas expectativas de rendimento, respeitando também seu perfil de investimento.

Caso tenha dúvidas a respeito desse processo, procure seu Assessor de Investimentos.

Ele com certeza poderá te auxiliar na avaliação da sua situação e irá te ajudar a tomar a melhor decisão.

E fique a vontade para entrar em contato comigo, caso precise de alguma ajuda.

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Written by Felipe D'Aloia

Assessor de Investimentos na THEO3 Investimentos, escritório credenciado à XP

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